Para quem pensa cometer um suicídio sem dor, alertamos que o suicida não o fará sem dor, muita dor.
domingo, 21 de julho de 2013
Opção pela vida
Nos atuais dias turbulentos aumentam, assustadora e consideravelmente, os números dos indivíduos que se negam a viver, a enfrentar os desafios e as dificuldades, fugindo por meio da ingestão de drogas alucinógenas, do álcool, dos excessos desvigorantes, ao prosseguimento da existência corporal.
Ao lado desses programas de autodestruição, surgem os casos dos suicídios psicológicos, nos quais as suas vítimas se enredam nas teias da depressão, da paranóia, da psicose, da esquizofrenia, sem valor moral para enfrentar os problemas e dificuldades
que fazem parte da vida.
O suicídio é o ato sumamente covarde de quem opta por fugir, despertando em realidade mais vigorosa, sem outra alternativa de escapar.
A vida não se consome na morte física e o fenômeno biológico não é a expressão real do ser.
Como conseqüência, o ex-suicida reencarnado sempre traz as matizes do crime perpetrado, sofrendo continua tentação de repetir o delito, quando defrontado por dificuldades de qualquer natureza.
É cômodo e trágico fugir psicologicamente da vida, jamais o conseguirão realmente.
Por outro lado, aparecem indivíduos que se aferram aos objetivos que se lhe representam como vida: amar apaixonadamente alguém, cuidar de outrem, dedicar-se a um labor, a uma tarefa artística ou não, a um ideal ou à abnegação, e que, concluída a motivação, negam-se a viver, matando-se emocionalmente e sucumbindo depois...
"Quem se considera livre para morrer, assume um compromisso com
a liberdade para viver".
Joanna de Ângelis
segunda-feira, 8 de julho de 2013
Suicídio na adolescência
“Que fareis, pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vós tem doutrina,tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação.” – Paulo. (I Coríntios, 14:26.) A adolescência é concebida em nosso meio social a partir de inúmeros estereótipos, talvez mobilizados por crenças que a consideram como uma fase do esenvolvimento pautada por crises existenciais,conflitos entre gerações, maturação da personalidade, alterações hormonais entre outras, que culminam com o rótulo de “aborrecência”.
Lamentavelmente, essa concepção pejorativa abate a autoestima do adolescente, induzindo-o a assumir esta condição personológica, bem como seus familiares e a sociedade como um todo. A consequência dessa rotulação é a ocultação de sinais importantes referentes à saúde psíquica, emocional e espiritual do jovem. A prevalência de transtornos psiquiátricos na adolescência é de 10 a 15 %. As principais demandas nas clínicas psiquiátricas referem-se a alterações comportamentais sem diagnóstico, depressão e comportamento suicida.1
Segundo a Organização Mundial de Saúde,2 os comportamentos suicidas entre adolescentes (e também entre crianças) são motivados por inúmeras situações, tais como: humor depressivo, desequilíbrio emocional, comportamental e social, abuso de substâncias tóxicas, término de relações amorosas, dificuldades acadêmicas, questões associadas à incapacidade para lidar com frustrações e resolução de problemas, baixa autoestima e conflitos com a identidade sexual. (Ver quadro na página 20.) Além desses fatores, a Doutrina Espírita também nos informa que obsessões graves podem culminar com o suicídio: [...] a obsessão arrasta um complexo tormentoso, difícil de ser superado [...].
E como o obsidiado envolveu-se nessa faixa criminosa, sem procurar dela afastar-se, renovando-se para o amor de Deus e o progresso de si mesmo, torna-se joguete do malefício próprio e alheio e tudo então pode acontecer, até mesmo o suicídio,suprema desgraça de um obsidiado, suprema desgraça para um obsessor, cuja responsabilidade é grave perante as leis de Deus.3 A gravidade de tal questão convoca-nos a um olhar atento e fraterno dirigido aos nossos jovens, munidos com o Evangelho e também com as contribuições das ciências da Terra, igualmente benesses do Alto, como a Psicologia e a Psiquiatria. Dessa forma, arrolamos algumas intervenções que visam ajudar adolescentes com ideação ou intencionalidade suicida: Psicoterapia: o acompanhamento psicológico, orientado por um profissional sério e competente, é um importante mecanismo para auxiliar o adolescente em crise suicida. Neste contexto, o profissional de Psicologia receberá o jovem em um espaço protegido de escuta, acolhimento e orientação para uma vida saudável. Acompanhamento familiar: é imprescindível que a família esteja consciente do estado de saúde mental e espiritual do adolescente em crise suicida. Pais, irmãos e parentes devem impedir o acesso aos meios para cometer o suicídio (medicações, substânciastóxicas, instrumentos cortantes, cordas etc.).
Além disso, cabe aos familiares do jovem a realização semanal do culto no lar,momento propício para reflexão sobre a consolação espírita e, também, uma oportunidade para a conversa fraterna, pautada no amor, atenção e paciência diante do sofrimento vivido pelo jovem. Psiquiatria: não obstante os preconceitos em torno da medicação psiquiátrica, esta é um meio fundamental para o restabelecimento psíquico de pessoas em crise emocional. O quadro depressivo e de ideação suicida vivenciado pelo jovem alteram o funcionamento neuroquímico, sendo necessária a intervenção do psiquiatra. Responsabilização sobre a própria condição emocional: apesar do abatimento emocional do jovem, é importante que ele assuma a responsabilidade pelo próprio soerguimento.
Conquanto seja uma atitude difícil no auge da crise suicida, cabe à rede social do jovem (família, psicólogo, psiquiatra, amigos) motivá-lo ao autocuidado, para que não considere ser somente cuidado, mas também ator pela manutenção da própria saúde. Frequência na Casa Espírita: o Centro Espírita, como hospital das almas, oferece excelentes contribuições para o restabelecimento da saúde integral dos nossos adolescentes. Considerando que o adolescente já esteja cônscio de sua responsabilidade pelo próprio tratamento, é fundamental que ele frequente, assiduamente, as atividades de evangelização espírita,que geram, de início, duas consequências positivas: a inserção em um novo grupo de amizades e,depois, o estudo e reflexão das páginas doutrinárias que propiciarão uma higienização mental, destruindo ligações fluídicas perniciosas que acometem o funcionamento psíquico do jovem. Evangelização Espírita: a compreensão dos princípios espíritas,com base numa fé raciocinada,promove a consolação do jovem em crise e, consequentemente, previne o suicídio, conforme explana Allan Kardec: [...]
O Espiritismo dá a ver as coisas de tão alto, que, perdendo a vida terrena três quartas partes da sua importância,o homem não se aflige tanto com as tribulações que a acompanham.Daí, mais coragem nas aflições, mais moderação nos desejos. Daí, também, o banimento da ideia de abreviar os dias da existência, por isso que a ciência espírita ensina que, pelo suicídio, sempre se perde o que se queria ganhar. A certeza de um futuro, que temos a faculdade de tornar feliz, a possibilidade de estabelecermos relações com os entes que nos são caros, oferecem ao espírita suprema consolação.[...]4 Mocidade Espírita: vale destacar a importância do acompanhamento afetivo dos evangelizadores da mocidade espírita com o jovem que esteja vivenciando este processo de adoecimento psíquico. Nesse sentido, além da dedicação às aulas sobre Espiritismo,é fundamental prestar atenção na vida desse jovem, promovendo acompanhamento individualizado e fraterno compartilhando com o jovem seu dia a dia, dificuldades, desafios etc.
Desobsessão: outro importante auxiliar é o tratamento desobsessivo,associado à terapia de passes e água fluidificada que, juntos,promovem o reequilíbrio psíquico,emocional e espiritual do adolescente.Este suporte espiritual precisa, necessariamente, do comprometimento do jovem, que deve se dedicar à oração diária, a leituras edificantes e à vigilância dos pensamentos. Embora seja uma triste realidade que acomete milhares de jovens em todo o mundo, é importante estarmos atentos à orientação do Apóstolo dos gentios, considerando que temos a nosso favor a consolação espírita, as ciências da Terra, a razão e o amor para protegê-los. Façamos, pois, de tudo pela edificação da juventude. SINAIS QUE INDICAM RISCO DE COMPORTAMENTO SUICIDA 1. Comportamento retraído, inabilidade para se relacionar com a família e amigos, pouca rede social; 2.
Doença psiquiátrica; 3. Alcoolismo; 4. Ansiedade ou pânico; 5. Mudança na personalidade, irritabilidade, pessimismo, depressão ou apatia; 6. Mudança no hábito alimentar e de sono; 7. Tentativa de suicídio anterior; 8. Odiar-se, sentimento de culpa, de se sentir sem valor ou com vergonha; 9. Perda recente e significativa – morte, divórcio, separação etc.; 10. História familiar de suicídio. Adaptado do Manual de prevenção de suicídio do Ministério da Saúde.5 Referências: 1SCIVOLETTO, Sandra; BOARATI, Miguel A.;TURKIEWICZ, Gizela (2010). Emergências psiquiátricas na infância e na adolescência. Revista Brasileira de Psiquiatria, v. 32,supl. II, out. 2010. 2ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Prevenção do suicídio – um recurso para conselheiros.Genebra: OMS, 2006. 3PEREIRA, Yvonne A. O drama da Bretanha. Pelo Espírito Charles. 10. ed. 5. reimp.Rio de Janeiro: FEB, 2011. cap. Marcus de Villiers, p. 79. 4KARDEC, Allan. O livro dos espíritos.Trad. Guillon Ribeiro. 92. ed. 2. reimp. Rio Janeiro: FEB, 2012. Conclusão, it. 7. 5BRASIL. Prevenção do Suicídio – Manual dirigido a profissionais das equipes de saúde mental. Brasília: Ministério da Saúde, 200
Leila do Amaral
http://www.sistemas.febnet.org.br/reformadoronline/pagina/?id=367
Lamentavelmente, essa concepção pejorativa abate a autoestima do adolescente, induzindo-o a assumir esta condição personológica, bem como seus familiares e a sociedade como um todo. A consequência dessa rotulação é a ocultação de sinais importantes referentes à saúde psíquica, emocional e espiritual do jovem. A prevalência de transtornos psiquiátricos na adolescência é de 10 a 15 %. As principais demandas nas clínicas psiquiátricas referem-se a alterações comportamentais sem diagnóstico, depressão e comportamento suicida.1
Segundo a Organização Mundial de Saúde,2 os comportamentos suicidas entre adolescentes (e também entre crianças) são motivados por inúmeras situações, tais como: humor depressivo, desequilíbrio emocional, comportamental e social, abuso de substâncias tóxicas, término de relações amorosas, dificuldades acadêmicas, questões associadas à incapacidade para lidar com frustrações e resolução de problemas, baixa autoestima e conflitos com a identidade sexual. (Ver quadro na página 20.) Além desses fatores, a Doutrina Espírita também nos informa que obsessões graves podem culminar com o suicídio: [...] a obsessão arrasta um complexo tormentoso, difícil de ser superado [...].
E como o obsidiado envolveu-se nessa faixa criminosa, sem procurar dela afastar-se, renovando-se para o amor de Deus e o progresso de si mesmo, torna-se joguete do malefício próprio e alheio e tudo então pode acontecer, até mesmo o suicídio,suprema desgraça de um obsidiado, suprema desgraça para um obsessor, cuja responsabilidade é grave perante as leis de Deus.3 A gravidade de tal questão convoca-nos a um olhar atento e fraterno dirigido aos nossos jovens, munidos com o Evangelho e também com as contribuições das ciências da Terra, igualmente benesses do Alto, como a Psicologia e a Psiquiatria. Dessa forma, arrolamos algumas intervenções que visam ajudar adolescentes com ideação ou intencionalidade suicida: Psicoterapia: o acompanhamento psicológico, orientado por um profissional sério e competente, é um importante mecanismo para auxiliar o adolescente em crise suicida. Neste contexto, o profissional de Psicologia receberá o jovem em um espaço protegido de escuta, acolhimento e orientação para uma vida saudável. Acompanhamento familiar: é imprescindível que a família esteja consciente do estado de saúde mental e espiritual do adolescente em crise suicida. Pais, irmãos e parentes devem impedir o acesso aos meios para cometer o suicídio (medicações, substânciastóxicas, instrumentos cortantes, cordas etc.).
Além disso, cabe aos familiares do jovem a realização semanal do culto no lar,momento propício para reflexão sobre a consolação espírita e, também, uma oportunidade para a conversa fraterna, pautada no amor, atenção e paciência diante do sofrimento vivido pelo jovem. Psiquiatria: não obstante os preconceitos em torno da medicação psiquiátrica, esta é um meio fundamental para o restabelecimento psíquico de pessoas em crise emocional. O quadro depressivo e de ideação suicida vivenciado pelo jovem alteram o funcionamento neuroquímico, sendo necessária a intervenção do psiquiatra. Responsabilização sobre a própria condição emocional: apesar do abatimento emocional do jovem, é importante que ele assuma a responsabilidade pelo próprio soerguimento.
Conquanto seja uma atitude difícil no auge da crise suicida, cabe à rede social do jovem (família, psicólogo, psiquiatra, amigos) motivá-lo ao autocuidado, para que não considere ser somente cuidado, mas também ator pela manutenção da própria saúde. Frequência na Casa Espírita: o Centro Espírita, como hospital das almas, oferece excelentes contribuições para o restabelecimento da saúde integral dos nossos adolescentes. Considerando que o adolescente já esteja cônscio de sua responsabilidade pelo próprio tratamento, é fundamental que ele frequente, assiduamente, as atividades de evangelização espírita,que geram, de início, duas consequências positivas: a inserção em um novo grupo de amizades e,depois, o estudo e reflexão das páginas doutrinárias que propiciarão uma higienização mental, destruindo ligações fluídicas perniciosas que acometem o funcionamento psíquico do jovem. Evangelização Espírita: a compreensão dos princípios espíritas,com base numa fé raciocinada,promove a consolação do jovem em crise e, consequentemente, previne o suicídio, conforme explana Allan Kardec: [...]
O Espiritismo dá a ver as coisas de tão alto, que, perdendo a vida terrena três quartas partes da sua importância,o homem não se aflige tanto com as tribulações que a acompanham.Daí, mais coragem nas aflições, mais moderação nos desejos. Daí, também, o banimento da ideia de abreviar os dias da existência, por isso que a ciência espírita ensina que, pelo suicídio, sempre se perde o que se queria ganhar. A certeza de um futuro, que temos a faculdade de tornar feliz, a possibilidade de estabelecermos relações com os entes que nos são caros, oferecem ao espírita suprema consolação.[...]4 Mocidade Espírita: vale destacar a importância do acompanhamento afetivo dos evangelizadores da mocidade espírita com o jovem que esteja vivenciando este processo de adoecimento psíquico. Nesse sentido, além da dedicação às aulas sobre Espiritismo,é fundamental prestar atenção na vida desse jovem, promovendo acompanhamento individualizado e fraterno compartilhando com o jovem seu dia a dia, dificuldades, desafios etc.
Desobsessão: outro importante auxiliar é o tratamento desobsessivo,associado à terapia de passes e água fluidificada que, juntos,promovem o reequilíbrio psíquico,emocional e espiritual do adolescente.Este suporte espiritual precisa, necessariamente, do comprometimento do jovem, que deve se dedicar à oração diária, a leituras edificantes e à vigilância dos pensamentos. Embora seja uma triste realidade que acomete milhares de jovens em todo o mundo, é importante estarmos atentos à orientação do Apóstolo dos gentios, considerando que temos a nosso favor a consolação espírita, as ciências da Terra, a razão e o amor para protegê-los. Façamos, pois, de tudo pela edificação da juventude. SINAIS QUE INDICAM RISCO DE COMPORTAMENTO SUICIDA 1. Comportamento retraído, inabilidade para se relacionar com a família e amigos, pouca rede social; 2.
Doença psiquiátrica; 3. Alcoolismo; 4. Ansiedade ou pânico; 5. Mudança na personalidade, irritabilidade, pessimismo, depressão ou apatia; 6. Mudança no hábito alimentar e de sono; 7. Tentativa de suicídio anterior; 8. Odiar-se, sentimento de culpa, de se sentir sem valor ou com vergonha; 9. Perda recente e significativa – morte, divórcio, separação etc.; 10. História familiar de suicídio. Adaptado do Manual de prevenção de suicídio do Ministério da Saúde.5 Referências: 1SCIVOLETTO, Sandra; BOARATI, Miguel A.;TURKIEWICZ, Gizela (2010). Emergências psiquiátricas na infância e na adolescência. Revista Brasileira de Psiquiatria, v. 32,supl. II, out. 2010. 2ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Prevenção do suicídio – um recurso para conselheiros.Genebra: OMS, 2006. 3PEREIRA, Yvonne A. O drama da Bretanha. Pelo Espírito Charles. 10. ed. 5. reimp.Rio de Janeiro: FEB, 2011. cap. Marcus de Villiers, p. 79. 4KARDEC, Allan. O livro dos espíritos.Trad. Guillon Ribeiro. 92. ed. 2. reimp. Rio Janeiro: FEB, 2012. Conclusão, it. 7. 5BRASIL. Prevenção do Suicídio – Manual dirigido a profissionais das equipes de saúde mental. Brasília: Ministério da Saúde, 200
Leila do Amaral
http://www.sistemas.febnet.org.br/reformadoronline/pagina/?id=367
terça-feira, 2 de julho de 2013
Porque as pessoas tentam o suicídio
As pessoas tentam o suicídio porque não podem suportar a sua dor psicológica e duvidam que alguma vez irão ficar melhor, sugere uma nova pesquisa.
Embora isso possa parecer intuitivo, os novos resultados, publicados este mês na revista Suicide and Life-Threatening Behavior [veja aqui], contradiz outras hipóteses de que as tentativas de suicídio são impulsivas ou um "grito de socorro".
"As nossas descobertas realmente convergiram em duas motivações que se aplicam a todos os que estavam no nosso estudo: a dor psicológica insuportável e o desespero de que as coisas não melhoram", disse o co-autor David E. Klonsky, psicólogo da Universidade de British Columbia, no Canadá.
As descobertas podem ter implicações para os médicos que tentam identificar quais pacientes correm maior risco de suicídio, disse Klonsky. Pesquisas anteriores já haviam descoberto que a demografia ou a genética podem desempenhar um papel importante no risco de suicídio.
Por exemplo, uma pesquisa mostrou que as crianças com autismo têm um maior risco de suicídio. A depressão também está ligado ao suicídio. Mas tais generalizações não fornecem orientações úteis para os médicos identificarem os pacientes que estão em maior risco.
Para isso, os pesquisadores devem primeiro obter uma melhor compreensão do que leva as pessoas às tentativa de suicídio. Assim, os pesquisadores desenvolveram um questionário para entender as motivações suicidas, e, em seguida, deram-no a 120 pessoas que tentaram suicídio nos últimos três anos.
Metade das pessoas veio da população em geral e tinham uma idade média de 38 anos, enquanto a outra metade era composta por alunos de graduação com uma média de idade de 21 anos. A maioria tinha tentado o suicídio entre uma e três vezes, mas pelo menos um paciente tinha feito 15 tentativas.
A esmagadora maioria das pessoas disseram que tentaram o suicídio por causa de sofrimento psicológico insuportável e porque estavam sem esperança de que iriam melhorar. A maioria também estava a pensar em suicídio há muitos anos.
Ao contrário das teorias anteriores, eles não mostraram mais impulsividade do que a população em geral, e não estavam propensos a dizer que a tentativa foi um grito de socorro. Os resultados sugerem que medidas como colocar redes debaixo das pontes pode prevenir o suicídio porque eles não frustrar uma tentativa impulsiva de suicídio.
Em vez disso, tais impedimentos previnem o suicídio por alguns minutos, horas ou dias - tempo suficiente para que os estados mentais das pessoas melhorem e até possam suportar a dor um pouco mais e, possivelmente, obtenham ajuda, afirmou Klonsky.
No entanto, pode haver mais fatores a distinguir aqueles que pensam em suicídio e aqueles que tentam fazê-lo. Outra pesquisa mostrou que as pessoas que sofrem de depressão que não tentam o suicídio podem ser tão infelizes e sem esperança, mas têm mais medo da ideia de que aqueles que fazem as tentativas.
"Tudo sobre a nossa biologia é para evitar a dor, evitar lesões, evitar a morte", afirmou Klonsky citado pelo LiveScience. Mas as pessoas que tentam o suicídio têm menos medo da dor e da morte. As pessoas que têm uma história de auto-mutilação, por exemplo, podem ter menos medo de tentar o suicídio do que aqueles que não o fazem.
Outra pesquisa mostrou que a habituação à ideia - que passa simplesmente por pensar muitas vezes sobre ela ou, por exemplo, andar numa ponte elevada enquanto considera o suicídio - também pode tornar as pessoas mais propensas a realizar uma tentativa. O novo estudo também fornece uma ferramenta para encontrar as pessoas em risco por causa de sofrimento psicológico, desespero e falta de medo da dor ou morte.
"Nós também achamos que um senso de conexão com os outros - a família, a comunidade, os amigos - é um importante fator de proteção que mantém as pessoas ligadas à vida e a querer viver, mesmo se estiverem em desespero ou dor", concluiu Klonsky.
- See more at: http://www.ciencia-online.net/2013/06/porque-as-pessoas-tentam-o-suicidio.html?showComment=1371829298087#sthash.NLu4ZMEW.dpuf
Embora isso possa parecer intuitivo, os novos resultados, publicados este mês na revista Suicide and Life-Threatening Behavior [veja aqui], contradiz outras hipóteses de que as tentativas de suicídio são impulsivas ou um "grito de socorro".
"As nossas descobertas realmente convergiram em duas motivações que se aplicam a todos os que estavam no nosso estudo: a dor psicológica insuportável e o desespero de que as coisas não melhoram", disse o co-autor David E. Klonsky, psicólogo da Universidade de British Columbia, no Canadá.
As descobertas podem ter implicações para os médicos que tentam identificar quais pacientes correm maior risco de suicídio, disse Klonsky. Pesquisas anteriores já haviam descoberto que a demografia ou a genética podem desempenhar um papel importante no risco de suicídio.
Por exemplo, uma pesquisa mostrou que as crianças com autismo têm um maior risco de suicídio. A depressão também está ligado ao suicídio. Mas tais generalizações não fornecem orientações úteis para os médicos identificarem os pacientes que estão em maior risco.
Para isso, os pesquisadores devem primeiro obter uma melhor compreensão do que leva as pessoas às tentativa de suicídio. Assim, os pesquisadores desenvolveram um questionário para entender as motivações suicidas, e, em seguida, deram-no a 120 pessoas que tentaram suicídio nos últimos três anos.
Metade das pessoas veio da população em geral e tinham uma idade média de 38 anos, enquanto a outra metade era composta por alunos de graduação com uma média de idade de 21 anos. A maioria tinha tentado o suicídio entre uma e três vezes, mas pelo menos um paciente tinha feito 15 tentativas.
A esmagadora maioria das pessoas disseram que tentaram o suicídio por causa de sofrimento psicológico insuportável e porque estavam sem esperança de que iriam melhorar. A maioria também estava a pensar em suicídio há muitos anos.
Ao contrário das teorias anteriores, eles não mostraram mais impulsividade do que a população em geral, e não estavam propensos a dizer que a tentativa foi um grito de socorro. Os resultados sugerem que medidas como colocar redes debaixo das pontes pode prevenir o suicídio porque eles não frustrar uma tentativa impulsiva de suicídio.
Em vez disso, tais impedimentos previnem o suicídio por alguns minutos, horas ou dias - tempo suficiente para que os estados mentais das pessoas melhorem e até possam suportar a dor um pouco mais e, possivelmente, obtenham ajuda, afirmou Klonsky.
No entanto, pode haver mais fatores a distinguir aqueles que pensam em suicídio e aqueles que tentam fazê-lo. Outra pesquisa mostrou que as pessoas que sofrem de depressão que não tentam o suicídio podem ser tão infelizes e sem esperança, mas têm mais medo da ideia de que aqueles que fazem as tentativas.
"Tudo sobre a nossa biologia é para evitar a dor, evitar lesões, evitar a morte", afirmou Klonsky citado pelo LiveScience. Mas as pessoas que tentam o suicídio têm menos medo da dor e da morte. As pessoas que têm uma história de auto-mutilação, por exemplo, podem ter menos medo de tentar o suicídio do que aqueles que não o fazem.
Outra pesquisa mostrou que a habituação à ideia - que passa simplesmente por pensar muitas vezes sobre ela ou, por exemplo, andar numa ponte elevada enquanto considera o suicídio - também pode tornar as pessoas mais propensas a realizar uma tentativa. O novo estudo também fornece uma ferramenta para encontrar as pessoas em risco por causa de sofrimento psicológico, desespero e falta de medo da dor ou morte.
"Nós também achamos que um senso de conexão com os outros - a família, a comunidade, os amigos - é um importante fator de proteção que mantém as pessoas ligadas à vida e a querer viver, mesmo se estiverem em desespero ou dor", concluiu Klonsky.
- See more at: http://www.ciencia-online.net/2013/06/porque-as-pessoas-tentam-o-suicidio.html?showComment=1371829298087#sthash.NLu4ZMEW.dpuf
quinta-feira, 13 de junho de 2013
segunda-feira, 6 de maio de 2013
Falar mais sobre suicídio ajuda na prevenção
A FALTA DE DIÁLOGO E REFLEXÃO SOBRE O TEMA, AINDA TABU NO BRASIL, AUMENTA O SOFRIMENTO PSÍQUICO
Falar mais sobre suicídio ajuda na prevenção, dizem especialistas
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Características pessoais, somadas ao sofrimento inerente à vida, podem levar a desequilíbrios emocionais profundos (João Correira Filho/Arquivo RBA))
São Paulo – Enquanto a população brasileira cresceu 17,8% entre 1998 e 2008, o número de homicídios aumentou 19,5% e o de óbitos por acidentes de transporte, 26,5%. Porém, o suicídio teve crescimento de 33,5% no mesmo período, conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Embora o Brasil não esteja entre os países com maiores médias, o dado se torna preocupante quando é levado em conta o tamanho da população brasileira.
Além disso, é crescente o número de pessoas em algumas regiões do Rio Grande do Sul e sobretudo entre os indígenas, que se enforcam, se intoxicam com medicamentos e agrotóxicos, como o chumbinho (substância também usada como veneno contra ratos), que disparam contra si próprios armas de fogo ou saltam de grandes alturas.
Considerado problema de saúde pública, o suicídio é definido como ato de deliberadamente tirar a própria vida. “No entanto, nem todas as pessoas que põem fim à própria vida estão em condições emocionais e mentais para tomar essa decisão sem a interferência de um problema mental ou falsas crenças”, diz Neury Botega, professor de Medicina da Universidade de Campinas (Unicamp) no documentário Suicídio no Brasil, realizado pelo Grupo de Pesquisa e Prevenção do Suicídio (PesqueSui), do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Seu coordenador, o pesquisador Carlos Eduardo Estellita-Lins, é organizador do livro Trocando seis por meia dúzia – Suicídio como emergência do Rio de Janeiro, lançado esta semana no Rio de Janeiro.
Conforme especialistas, o suicídio é resultado de uma combinação perigosa de depressão, alcoolismo, traços de impulsividade e outros problemas mentais, além da perda de esperança no futuro, da fé, dos sonhos utópicos. A maioria das vítimas brasileiras é de adultos jovens, do sexo masculino.
Para José Belisário Filho, psiquiatra especializado em infância e adolescência que também participa do documentário da Fiocruz, o período correspondente à infância encolheu e a adolescência aumentou. “Pela própria transitoriedade da fase, surgem no período mais ideações suicidas”, diz. Segundo ele, estudos mostram que o número de casos em idade escolar aumentou em comparação com o do século passado. “As pessoas têm medo de falar disso. E os jovens acham que têm algo de muito errado com eles quando têm esses pensamentos. Se eles pudessem dialogar sobre isso, iriam ver que muitos pensam ou pensaram como eles em algum momento da vida”, diz o especialista.
“O problema não é ter o pensamento suicida, mas não saber o que fazer com ele. Falta preparação dos adolescentes e jovens para o sofrimento”, completa Neury Botega, que considera que a falta de diálogo sobre suicídio é como jogar para debaixo do tapete um problema e ser surpreendido mais tarde por um caso fatal que poderia ter sido evitado.
Ainda segundo os especialistas, os serviços de saúde devem oferecer medidas para aumentar as chances de reflexão e ampliar as possibilidades de saídas para a angústia e para o sofrimento e que, assim, a pessoa em sofrimento psíquico encontre outras alternativas além do fim de sua própria existência.
Entre as medidas de prevenção apontadas estão campanhas divulgadas pela imprensa e, principalmente, a restrição de acesso aos meios letais, como o chumbinho, um agrotóxico usado como raticida que tem causado muitas mortes. Em alguns países, como a Austrália, houve redução nas taxas de suicídio depois de amplas campanhas e do desarmamento da população.
Em outros, há sucesso com a colocação de barreiras em plataformas de trens e metrôs e de intervenções em grandes edificações, como a colocação de redes, além da embalagem de comprimidos em cartelas-bolha em vez de soltos, em vidros. “Com isso dá tempo de chegar alguém enquanto a pessoa destaca comprimido por comprimido. Há uma chance de socorro”, diz Marcelo Tavares, do Núcleo de Intervenção ao Suicídio da Universidade de Brasília (UnB). “A menor dificuldade que se coloca para o salto de uma janela, de um parapeito, pode levar a pessoa a refletir melhor se vale mesmo a pena aquele esforço”, diz Marcelo.
Seis por meia dúzia
O livro Trocando seis por meia dúzia – Suicídio como emergência do Rio de Janeiro é resultado de três anos de pesquisa realizada nos polos de emergência psiquiátrica do Rio de Janeiro. Relata o atendimento aos pacientes que atentam contra a sua própria vida nas emergências dos hospitais da cidade, e aborda as dificuldades dos profissionais de saúde desde a recepção até o atendimento pelo psiquiatra e, principalmente, a constatação da inexistência de serviços preparados para esta demanda.
O livro traz ainda depoimentos de profissionais, de sobreviventes e de camelôs que vendem o chumbinho, veneno dos mais procurados por suicidas, sem registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e vendido livremente.
Fonte:
domingo, 28 de abril de 2013
Saúde Mental - Suicídio
Saúde Mental - Suicídio
O suicídio é um grave problema de saúde pública e pode ser visto como um comportamento humano complexo, incluindo comportamentos, atitudes e cognições, cujos limites são vagos e imprecisos. Na ideação suicida, o indivíduo deseja estar morto, o que pode levá-lo a tentativa de suicídio e ao suicídio consumado.
Existe, nos dias atuais, uma preocupação cada vez maior com a relação de depressão com os riscos reais e potenciais do suicídio, pois tem-se estudado que os estados depressivos têm uma grande variedade de manifestações clínicas, que apresentam diferentes formas de desenvolvimento, e podem se relacionar a casos de suicídio.
Histórico
“O suicídio é visto como um comportamento humano complexo. Inclui muitos comportamentos, atitudes e cognições, cujos limites são vagos e imprecisos e, nas ultimas décadas, tornou-se grave problema de saúde pública”. (LOUZÃ NETO, 2007, p. 475)
O suicídio é um fenômeno presente na humanidade desde os primórdios e constitui um tema que tem gerado discussões em várias áreas do saber.
A palavra suicídio surgiu do século XVII, na Inglaterra, na obra do Inglês Sir Thomas Browne, chamada Religio Médici, publicada em 1642. Na França, em 1734, foi utilizada pelo abade francês Desfontaines, que havia visitado a Inglaterra anteriormente, para significar “o assassinato ou a morte de si mesmo”. (LOUZÃ NETO, 2007, p. 475).
Na Antiguidade Greco-romana o suicídio era tido como um ato clandestino, patológico, solitário e somente seria tolerado com a permissão da sociedade. Não havia o poder de decisão pessoal, pois o ato suicida era considerado uma forma de transgressão. Como punição, as mãos dos suicidas eram enterradas separadas e sem direito a uma sepultura e ritos funerários. (KÓVACS, 1992).
Na Idade Média, o indivíduo e a sua vida eram considerados propriedades de Deus, sendo ele castigado se tentasse se apossar da vida que não era sua. O suicídio ou ato de se matar entre os povos primitivos estava relacionado às normas do grupo, podendo ser incentivado pela comunidade - como, por exemplo, os escravos após a morte do dono, e na Índia as viúvas após a morte do marido - ou sendo uma séria infração às regras sociais. Havendo a quebra de costumes e das tradições nesta sociedade era considerado como delito grave. (KÓVACS, 1992).
De acordo com Dutra (2002) ao longo da história das civilizações, o suicídio tem sido circundado de tabus, mitos e como também preconceitos das mais diversas naturezas, principalmente os de ordem moral e religiosa. As definições teóricas e as suas causas variam, agregam-se, contestam-se, permanecendo sem uma resposta definitiva e exata a respeito de tal fenômeno
Nos dias atuais existe uma maior autonomia em relação ao suicídio, não tendo mais os castigos que existiam anteriormente. É importante contextualizar o suicídio, levando em consideração a inserção social deste ato na comunidade em que este indivíduo faz parte, pois sabe-se que existem diversas culturas, e que os valores são diferentes em várias localidades. (KÓVACS, 1992).
Falando de Suicídio
“Etimologicamente, a palavra suicídio deriva do latim e significa: sui=si mesmo e caedes=ação de matar. Entretanto, essa definição etimológica de “morte de si mesmo”, é ampla demais, não englobando todos os detalhes desse comportamento tão complexo”. (MELEIRO; WANG 1995 apud LOUZÃ NETO, 2007, p.475).
O suicídio atualmente é considerado como todo caso de morte que procede direta ou indiretamente de uma ação, positiva ou negativa, realizado pela própria pessoa, como uma expressão inequívoca implicando assim em sofrimento e impacto profundo nos familiares. Esse fenômeno implica em sofrimento individual intenso, necessitando assim de cuidados especializados. (DURKHEIM, 1982 apud KÓVACS, 1992).
Durkheim (1982 apud KÓVACS, 1992) em seu livro “O suicídio” define o suicídio como um ato pessoal com características da sociedade que o produz, através dos valores, das normas sociais que podem influenciar o nível de interesse do indivíduo pela vida. É um homicídio com intenção de matar a si próprio e também uma ação com desespero de uma pessoa que não deseja mais viver, ou seja, esta decide por fim a sua vida e a forma que ela encontra é através do suicídio. O suicídio pode ser causado por uma insatisfação interior e profunda na qual o indivíduo no momento não está encontrando solução para seus problemas.
Esse mesmo autor classifica o suicídio em: Egoísta, Altruísta e Anômico. O suicídio egoísta procede de uma individualização excessiva. Pode ocorrer entre os indivíduos que perderam o sentido de integração com seu grupo social, não mais se encontrando sob a influência da sociedade, da família e da religião. No suicídio altruísta, o indivíduo pode se matar quando está muito integrado num grupo, ocorrendo principalmente em sociedades coletivas, onde os indivíduos suicidam-se para o bem comum, se sacrificando pela comunidade. O suicídio anômico, é observado nos indivíduos que vivem em uma sociedade em que está num momento de crise, quando lhes faltam os modelos de ordem e de uma conduta habitual.
Segundo Fukumitsu (2005 apud ODDONE, 2005 p. 166) “o suicida não procura a morte, mas a vida. O ato suicida trata-se de um derradeiro grito de confirmação da sua própria existência, embora ele aparente extremo desespero e desistência”. Segundo esta autora é importante entender o que está por trás desta tentativa, qual a mensagem que precisa ser passada e a intencionalidade pode ser consciente ou não, e nem sempre compreendido pela própria pessoa que tenta o suicídio.
É importante ressaltar a diferença ente o ato suicida e suicídio. O ato suicida “ocorre quando o indivíduo causa uma lesão a si mesmo, qualquer que seja o grau de intenção letal”. (OMS, 2000- 2001) No ato suicida a pessoa está ferindo e causando danos a si mesmo, compreendendo todas as tentativas de suicídio, e o suicídio acontece quando o ato é realmente consumado.
Toda pessoa que decide por fim a sua vida, necessariamente tem representação antecipada da própria morte, levando as pessoas a planejarem diversas vezes como deseja morrer.
Cassorla (1984) aponta que muitas pessoas apresentam comportamentos que contribuem para a redução do seu tempo de vida, como por exemplo, os fumantes de longos anos, já portadores de moléstias cardiopulmonares causadas pelo uso do tabaco, mas que devido ao vício não conseguem parar de fumar. Os alcoolistas, toxicômanos e até mesmo pessoas que ingerem alimentos prejudiciais ao organismo podem ser considerados suicidas, pois estão colaborando para causar danos à saúde, podendo chegar à morte.
Cassorla (1984) ainda afirma que indivíduos que de forma consciente ou não, optam por viver enfrentando perigos, como os que participam de corridas automobilísticas, os que realizam a roleta russa paulista, os policiais ao enfrentar perigos constantemente, o soldado voluntário que se dispõe para uma função que pode colocar a sua vida em risco também podem ser considerados suicidas.
Segundo Louzã Neto (2007, p.476) “a condição sine qua non do suicídio é a morte em que o sujeito é, ao mesmo tempo, o agente passivo e ativo, a vítima e o assassino, o desejo de morrer e ser morto e o desejo de matar”. Portanto a dificuldade de se suicidar reside na determinação da qualidade impulsiva ou voluntária da atividade suicida, ou seja, é uma decisão pessoal de cometer o suicídio. Por exemplo, quando um paciente pula de um local elevado quando ouve vozes alucinatórias, ele se torna o agente ativo e ao mesmo tempo vítima.
Botega et. al. (2006, apud VIEIRA, 2008) aponta alguns fatores de risco para o suicídio como: transtornos mentais (como por exemplo, a depressão), perdas recentes, perdas de figuras parentais na infância, dinâmica familiar conturbada, personalidade com fortes traços de impulsividade de agressividade, certas situações clínicas (como doenças crônicas incapacitantes, dolorosas, desfigurantes), acesso fácil a meios letais.
Baptista (2004) aponta outros fatores de risco para o suicídio como: isolamento social, transtorno de ansiedade ou pânico, uso de álcool ou outras drogas, estresse, problemas econômicos que causem crises financeiras, migrações, dor física intolerável e prolongada decepção amorosa.
De acordo com Pasternack (1983 apud DIAS, 1991, p.17):
Os motivos mais comuns relacionados aos desejos de suicídio são: fantasias de uma outra vida, de um paraíso, de um encontro com Deus, de outro mundo de riquezas e delícias de reencontro com pessoas queridas que morreram, de retorno ao seio materno; desejo de punição, de castigo, de destruição de impulsos assassinos ou de impulsos sexuais culposos etc.
Desta forma é importante salientar que as experiências de perda ou um luto mal resolvido podem ser fatores que desencadeiem a tentativa de suicídio.
Estudo do Comportamento Suicida
Mann e Arango (1992 apud BAPTISTA, 2004) ressaltam que o comportamento suicida abarca a ideação suicida, as tentativas frustradas e também a efetivação do suicídio.
Portanto a ideação pode ser passiva, abrangendo pensamentos ou desejo de estar morto, ou ativa se os pensamentos comprometerem os métodos ou o momento de se matar. As tentativas e o suicídio com sucesso estão ligados a comportamentos impulsivos e agressivos, como também a comportamentos de automutilação.
Existem também as hipóteses neuroquímicas que relacionam os sistemas serotonérgico, noradrenérgico e dopaminérgico de neurotransmissão ao comportamento suicida, porém com manipulações farmacológicas ou comportamentais as atividades desses sistemas podem ser equilibradas, pois encontram-se em baixa concentração no organismo.
Assim como a depressão, o comportamento suicida vem sendo considerado um sério problema de Saúde Pública, despertando interesse de pesquisadores no campo das mais diferentes ciências. (FEIJÓ, 1998).
Segundo Jamison (2002 apud SEGAL, 2009 p.17):
O comportamento suicida é um ato saturado de ambivalência. Mesmo já havendo definições sobre os fatores de risco e proteção do suicídio, estes ainda se encontram insuficientes na prevenção e no tratamento do problema.
Segundo Berman; Farberon apud Maris (2002 apud BAPTISTA, 2004) alguns comportamentos destrutivos podem aumentar a probabilidade de autolesão, como o jogo patológico, esportes de risco ou radicais, sexo desprotegido com diversos parceiros, entre outros.
De acordo com a OMS (2000-2001 apud WERLANG, 2004) vários são os fatores de proteção para o suicídio como: o apoio e a confiança nos membros da família, buscar ajuda e conselhos, ter senso de valor pessoal, boa relação com amigos e colegas, valores culturais, lazer, praticar esporte entre outros.
O comportamento suicida pode se relacionar a fatores de risco como a desesperança, o abuso de álcool e drogas, o neuroticismo. Os traços de personalidade são importantes no estudo do risco de suicídio, como humor instável, comportamento anti-social, dificuldade de aceitar a realidade, baixa tolerância a frustração.
“A noção mais global de comportamento suicida evita a tendência de se valorizar, exageradamente, a intencionalidade e a lucidez de consciência durante o ato suicida”. (BOTEGA, 2006, p. 431) A pessoa com comportamento suicida possui uma visão negativa da vida, crêem que não há mais solução para seus problemas, ou que a vida não tem mais sentido.
É importante se pensar na prevenção do comportamento suicida, pois isso não pressupõe apenas evitar a morte das pessoas e sim alertar as implicações que o suicídio desencadeia na sociedade, como o mal estar e estado de perturbação que é gerado nesta. Assim acredita-se que com a prevenção possa ser oferecido ao indivíduo possibilidades de enfrentar as dificuldades que levam ao comportamento suicida. Com a prevenção do comportamento suicida visa-se aspectos como promover a qualidade de vida, criar estratégias de comunicação e sensibilização relacionada a este fenômeno. (BOTEGA et. al, 2006).
Relação da Depressão com o Suicídio
“Assim como a depressão, o suicídio vem sendo considerado como um sério problema de Saúde Pública, despertando interesse de pesquisadores no campo das mais diferentes ciências”. (VIEIRA, 2008, p. 1).
Entende-se que a relação do suicídio e da depressão é estreita, pois o suicídio atualmente é considerado um sintoma ou exclusivamente uma conseqüência da depressão. (VIEIRA, 2008).
Conforme Nierenberg, Stephen; Grandin (2001 apud BAPTISTA, 2004, p.8) apontam que “muitas pessoas que apresentam transtornos de humor, principalmente depressão maior e transtorno bipolar, podem pensar se matar, ainda que decidam viver na última hora além do que muitas pessoas que se suicidam sofrem de transtornos do humor e, de diversas formas, estas mortes poderiam ser prevenidas.
Malone (2000 apud BAPTISTA, 2004) afirmou que pessoas depressivas que tentaram suicídio relatam maior desesperança e ideação suicida do que depressivos que nunca tentaram suicídio.
Para as pessoas que tem depressão, pensamentos de morte e pensamentos suicidas podem ser freqüentes em suas vidas, devido a isso elas podem planejar o suicídio, tentar ou até cometer o ato.
De acordo com o Ministério da Saúde (Brasil, 2006 apud VIEIRA, 2008) é importante estar atento a alguns sinais que compõem a história de vida e o comportamento das pessoas que possam ter risco para o comportamento suicida como: cartas de despedida, doença física crônica, menção repetida de morte ou suicídio, desejo súbito de concluir os afazeres pessoais como organizar documentos e escrever um testamento, ansiedade ou pânico, mudança de personalidade.
Como afirma Lewinsohn, Rohde e Seeley (1994 apud BAPTISTA, 2004) um preditor de uma posterior tentativa de suicídio é já ter tentado suicídio anteriormente.
De Man; Leduc (1995 apud BAPTISTA, 2004) relacionam a ideação suicida com baixa auto-estima, depressão, estresse, percepção de saúde, uso de drogas, baixo status familiar, performance acadêmica ineficiente, suporte social inadequado.
Portanto vários fatores necessitam ser trabalhados juntamente ao paciente depressivo. Como por exemplo, a família que está completamente envolvida no processo de adoecimento, levando em consideração a dinâmica familiar, e os estresses relacionados a ela.
De acordo com Louzã Neto (2007, p. 230):
Os períodos de mudança de humor, como início ou fim de um episódio depressivo, constituem risco, assim como a associação de sintomas (em geral mistos), por exemplo, irritabilidade, abuso de drogas, e prolongada fase depressiva em paciente bipolar representa combinação particularmente letal. A presença de evento de vida estressante antecedendo tentativa de suicídio foi comum em doentes unipolares e bipolares, apesar de ter se associado mais aos doentes bipolares.
Há risco de suicídio em pacientes depressivos, principalmente quando se tem um maior tempo de evolução e gravidade no quadro e também com relação à maior freqüência de sintomas residuais encontrados nestes pacientes, como humor deprimido, perda de interesse ou prazer em realizar atividades.
Segundo Ballone (2003 apud VIEIRA 2008, p.3):
Os sintomas depressivos mais associados ao suicídio dizem respeito ao severo prejuízo da auto-estima, aos sentimentos de desesperança e à incapacidade de enfrentar e resolver problemas. Esses sintomas podem não estar presentes no início do quadro, mas à medida que a depressão vai se tornando mais grave, a baixa da auto-estima vai piorando, vão surgindo sentimentos de inutilidade e, progressivamente, o indivíduo vai ficando mais desesperado.
Atualmente, os fenômenos do suicídio e da depressão estão mais presentes nos espaços sociais, quebrando algumas barreiras como o sexo, idade, classe econômica ou cultural, sendo todos problemas de saúde pública. A depressão gera um sofrimento psíquico interferindo na qualidade de vida do indivíduo que é diminuída. (VIEIRA, 2008).
Conforme Coutinho (2005 apud VIEIRA 2008, p.67) afirma que:
Identificar as representações sociais acerca da depressão e do suicídio é compreender as formas que as pessoas utilizam para criar, transformar e interpretar essas problemáticas vinculadas à sua realidade. Como também conhecer seus pensamentos, sentimentos, percepções e experiências de vida compartilhadas, destacadas nas modalidades diferenciadas de comunicação, de acordo com o contexto cultural e a classe social a que pertencem, e as instituições às quais se está vinculado, prolongam-se para além das dimensões, intrapsíquicas e concretizando-se em fenômenos sociais palpáveis de serem identificados e mapeados.
É importante entender as representações sociais do ser humano, saber como o paciente constrói saberes acerca de determinadas circunstâncias, estando incluídos neste contexto a depressão e o suicídio.
Segundo Brasil (2006 apud VIEIRA, 2008) que existem quatro sentimentos que indicam o risco para a consumação e a tentativa de suicídio que são: depressão, desesperança, desamparo e desespero.
De acordo com Vieira (2008) não existe uma patologia ou algum acontecimento que possa prever o suicídio, e sim há certas fragilidades que indicam que algumas pessoas estão mais vulneráveis a cometer esse ato do que outras. Nesse contexto a depressão é destacada como um fator de risco para o comportamento suicida. O transtorno depressivo é destacado entre as doenças vulneráveis ao suicídio e de acordo com a OMS (2000 apud Vieira 2008) esta é causadora de 30% da ocorrência de suicídio no mundo.
Segundo Lönnqvist, (2000 apud BOTEGA, 2006, p.217):
A associação entre depressão e suicídio é inequívoca. O risco de suicídio aumenta mais de 20 vezes em indivíduos com episódio de depressão maior, e é ainda maior em sujeitos com comorbidade com outros transtornos com outros transtornos psiquiátricos ou doenças clínicas.
De acordo com alguns dados da autópsia psicológica a metade dos indivíduos que morreram por suicídio estava sofrendo de depressão, mesmo considerando os indivíduos com outros transtornos mentais, a sintomatologia depressiva era central. (BOTEGA, 2006)
Segundo Sadock (2007, p. 975) “mais pessoas com transtornos depressivos cometem suicídio no começo da doença do que mais tarde”. A depressão está associada tanto ao suicídio consumado como às tentativas de suicídio e o aspecto clínico associado com mais freqüência à gravidade da intenção de morrer é um diagnóstico de um transtorno depressivo.
Ainda citando este autor, os transtornos de humor estão dentre os diagnósticos mais comuns associados ao suicídio, pois os pacientes sentem-se deprimidos, tristes, instáveis de tempos e tempos, quando estes sentimentos persistem interfere na vida do paciente O isolamento social entre pacientes depressivos aumenta as tendências suicidas.
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http://www.cursosaprendiz.com.br/artigo/19/saude-mental-suicidio
quinta-feira, 25 de abril de 2013
Suicídio, modo de evitar
Folha de São Paulo - FERNANDO TADEU MORAES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
Prevista para este ano, a inclusão de uma categoria de comportamentos suicidas no novo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o chamado DSM 5, referência na área de saúde mental em todo o mundo, pode ajudar os médicos a quantificar melhor esse fenômeno, em especial as tentativas, cujas taxas podem ser 40 vezes mais altas do que as dos suicídios consumados.
Essa é a opinião do psiquiatra José Manoel Bertolote, que acaba de lançar "O Suicídio e sua Prevenção" [Unesp, 142 págs., R$ 18]. Ele afirma, em entrevista à Folha, que a depressão, o alcoolismo e a esquizofrenia são as três principais causas por trás das mortes autoinflingidas.
Estima-se hoje em 1 milhão o número anual de mortes por suicídio em todo o mundo. Isso o coloca como uma das "três principais causa de óbitos em determinadas faixas etárias de vários países e em várias regiões do globo", escreve Bertolote. No livro, o psiquiatra traça um histórico sobre o tema a respeito do qual já se debruçaram teólogos, juristas, filósofos, sociólogos entre outros, e analisa, sob o prisma da saúde pública, suas causas no Brasil e no mundo.
Bertolote, 65, trabalhou por quase 20 anos na OMS (Organização Mundial da Saúde), onde chefiou a equipe de transtornos mentais e neurológicos. Uma de suas atribuições nesse período era auxiliar países a elaborar políticas de prevenção de suicídio. Hoje, ele é professor voluntário na Faculdade de Medicina da Unesp, em Botucatu, na qual se formou em 1971.
Durante a entrevista, Bertolote fez um pedido: gostaria que fosse incluído neste texto o número do telefone do Centro de Valorização da Vida, o CVV: 141.
*
Folha - Como o sr. vê a inclusão da categoria de comportamentos suicidas no novo manual de psiquiatria?
José Manoel Bertolote - Vejo com bons olhos. Hoje há boas estatísticas de mortes por suicídio para cerca de dois terços do mundo, mas não há um registro centralizado de tentativas de suicídio. Se uma pessoa ingere um veneno e vai parar no pronto-socorro, o caso é registrado como intoxicação; se ela corta os pulsos, lesão cortante. A intencionalidade acaba nunca sendo registrada.
A inclusão de uma categoria de comportamento suicida é bem-vinda, pois vai permitir dar uma visão melhor desse quadro. Estudos mostram que a taxa de tentativa de suicídios chega a ser 40 vezes mais alta que a taxa de suicídios consumados.
Como o suicídio se tornou um assunto da medicina?
Até cerca de três séculos atrás, o suicídio era basicamente um problema teológico. O catolicismo considerava o suicídio um pecado grave, o islamismo considera até hoje o pior pecado, pois é a destruição da obra divina. Havia também o interesse de filósofos e, na Inglaterra e em vários outros países, o suicídio era considerado uma morte indigna. O direito o tratava como um crime contra o Estado.
Foi a partir dos séculos 17 e 18 que médicos passaram a se interessar pela questão do suicídio e a considerar que o suicídio tinha uma relação estreita com a saúde, porque eles julgavam que todo suicídio era um ato de loucura. E isso foi ganhando adesão com o tempo. No século 20, consolidou-se a ideia de que o suicídio é um problema de saúde e, sobretudo, de saúde pública.
Há relação entre suicídio e doença?
O suicídio, em primeiro lugar, não é uma doença. Na perspectiva da saúde pública, é um fenômeno social de distribuição irregular na sociedade. Mas há estudos em todo o mundo que mostram que, por trás de grande parte das mortes por suicídio, existem doenças.
A maioria dessas doenças são mentais, mas há também uma grande associação entre suicídio e doenças incuráveis e dolorosas. A mortalidade de portadores de HIV por suicídio, por exemplo, caiu muito depois do advento do coquetel de drogas, quando ela deixou de ser essa doença mortal. As doenças mais associadas ao suicídio são a depressão, o alcoolismo e, um pouco atrás, a esquizofrenia.
Quais são os limites da prevenção do suicídio?
Não acredito que o suicídio possa ser erradicado, pois é um fenômeno humano que existe desde sempre. Há, por exemplo, uma porcentagem de suicídios por trás da qual, por mais se investigue, não se encontra uma doença ou causa clara.
Durkheim, em sua tipologia de suicídios, fala do suicídio altruísta [situação em que um indivíduo está tão conectado a sua comunidade, que abdica de sua individualidade, acreditando que sua morte pode trazer benefícios para a sociedade]. Como é que se vai prevenir isso? Não há o menor sentido. Não é disso que a prevenção do suicídio se ocupa. A prevenção se ocupa dos casos considerados evitáveis, porque decorrentes de um fator que poderia ser removido [como o alcoolismo].
Um dado importante e comprovado é que a maioria das pessoas que tentam o suicídio não quer morrer. São pessoas que querem mudar uma situação, escapar de um problema e, às vezes, a situação é tão tantalizante que a pessoa não enxerga outra saída. Há estudos com pessoas que fizeram uma tentativa de suicídio por um método muito letal e estão próximas de morrer. Elas são entrevistadas nesse momento. A imensa maioria fica desesperada quando percebe que vai morrer e que é irreversível.
A mídia deveria ter um papel nessa prevenção?
A mídia tem um grande papel na prevenção do suicídio. Há um mito de que não se pode tocar no assunto nos jornais. A imprensa pode ajudar ou atrapalhar de acordo com a forma que trata o assunto. Abordar o tema com sensacionalismo, promovendo o ato, explicando métodos etc. só atrapalha, já que sempre existe, em toda população, um certo número de indivíduos suscetíveis. Agora, abordar de uma maneira potencialmente educativa ajuda, sem dúvida.
O que o sr. acha de grupos como CVV e Samaritans [fundação inglesa aberta em 1953 dedicada à prevenção do suicídio]?
Eu já trabalhei com CVVs e Samaritans de vários países do mundo e tenho muita admiração pelo trabalho deles. Um ponto importante a ressaltar é que eles não fazem só a prevenção do suicídio; seu grande mérito é auxiliar uma pessoa em crise. Eles conseguem solucionar uma crise que talvez hoje não fosse suicida, mas que, pela falta de perspectiva, poderia evoluir para uma crise suicida. Penso que eles deveriam ser estimulados pelas autoridades sanitárias.
Como é o suicídio entre as populações indígenas?
As taxas de suicídios em populações indígenas são as mais altas em qualquer país do mundo, segundo estudos. Isso se explica com fatores sociológicos. Em geral populações indígenas são marginalizadas, pobres. Além disso, cada vez mais se identifica nessas populações indígenas o álcool como um fator desagregador, desestabilizador, causando conflitos e levando ao suicídio.
O álcool que havia em populações tradicionais indígenas brasileiras era o cauim, uma bebida de rituais, com baixo teor alcoólico; aí, de repente, eles pegam a cachaça, que tem um teor alcoólico altíssimo. E isso se agrava, pois as populações indígenas da América são de origem asiática, e é muito comum entre os asiáticos uma alteração genética que dificulta o metabolismo do álcool. Juntando todos os fatores, temos uma situação muito trágica numa população pequena de índios.
Pode-se falar de um luto diferente para os parentes de um suicida?
O luto de uma perda inesperada, sobretudo por uma forma inaceitável, é um luto mais complicado que o luto "normal". O suicídio sempre desperta nos que ficam no mínimo dois sentimentos: culpa e raiva. Isso causa um mal-estar tão grande que chega a ser um fator de risco de suicídio. São relativamente comuns suicídios em famílias em que um membro acaba de se suicidar.
Há um importante movimento internacional de sobreviventes, chamado Survivors, fundado por um casal americano que perdeu sua única filha pelo suicídio. Eles se aproximam de famílias em luto para conversar, compartilhar experiências. O resultado é o desenvolvimento de uma solidariedade intragrupal e o sentimento de solidariedade e responsabilidade pelos outros.
Entre 1980 e 2008 a taxa de suicídios de homens brasileiros quase dobrou. Quais são as possíveis explicações para isso?
Foi um aumento muito localizado, em jovens de 16 a 25 anos. O que vou dizer agora é mais uma impressão do que uma afirmação científica. Duas coisas que afetam particularmente esse grupo aconteceram nesse período: por um lado, houve uma explosão do número de usuários de drogas; por outro, houve a reforma psiquiátrica que fechou radicalmente o número de leitos psiquiátricos. Esses leitos foram fechados no momento em que o aumento dos usuários de drogas pedia um número maior. A sociedade nesse período também se tornou mais violenta. Na mesma época, houve aumento do número de homicídios, especialmente entre os jovens.
O que se sabe sobre as bases genéticas do suicídio?
Essa é uma área pobre de resultados. Eu, particularmente, acho muito improvável que alguém encontre o gene do suicídio. O que se sabe é que existem genes da violência. Nos indivíduos com alto risco de violência, isso pode se expressar como um suicídio dramático ou como um homicídio. Casos de pessoas que pegam uma arma, matam vários e depois se matam certamente envolvem pessoas extremamente violentas.
Uma grande dificuldade é que grande parte dos estudos genéticos é feito com gêmeos. Suicídio é um evento relativamente raro; encontrar gêmeos não é tão comum; e encontrar gêmeos nos quais um se matou e outro não é mais difícil ainda, o que torna as análises estatísticas muito pobres. O suicídio é uma coisa muito mais complexa do que pode ser expressada por um gene.
Como o sr. vê o direito ao suicídio?
Eu sou um pouco antiquado, acredito no juramento de Hipócrates, que diz que a tarefa principal do médico é preservar a vida. Claro que existem limites nos quais a preservação da vida não tem mais sentido. Filosoficamente, eu consigo entender alguém que, em plena posse de suas faculdades mentais, queira se matar; medicamente eu não tenho meios de justificar isso.
Vejo o direito ao suicídio com ressalvas, mas sempre fica a pergunta incômoda: quem sou eu para dizer a alguém aparentemente consciente dos seus atos e que quer se matar que ele não deveria fazer isso?
L., de 61 anos, é um exemplo de quem teve de recorrer à rede pública. Em tratamento há dois anos e meio, ele conta que passou a beber quando era adolescente, mas foi aos 50 anos que percebeu que a situação estava fora de controle. “Começava às 8 horas e continuava ao longo do dia.”
L. faz artesanato em madeira com a mulher, mas a renda dos dois não chega a dois salários mínimos. “A falta de perspectivas financeiras piora a situação. Problemas com dinheiro me estimulam a beber”, diz.
Para o médico Vilmar Ezequiel dos Santos, gerente do Centro de Atenção Psicossocial (Caps) de Santana, é preciso compreender o consumo do álcool em cada uma das classes sociais. “A forma de consumir, o valor que se dá ao consumo e o desfecho do problema em cada uma das camadas da sociedade são diversos.” Embora tenha havido mudanças, Santos destaca que nas classes D e E o álcool é socialmente mais aceitável.
De acordo com o Ministério da Saúde, o Brasil tem 329 Caps, com capacidade para realizar 7,8 milhões de atendimentos ao ano. De 2011 para 2012, os procedimentos aumentaram 25,8%.
Laranjeira diz que os resultados do estudo evidenciam o quanto as pessoas mais pobres sofrem com a ausência de uma estratégia efetiva do governo para a prevenção do abuso de álcool. “Essa política é acovardada”, constata. “A única mensagem que ouvimos é a de não associar direção e bebida. Todos, incluindo o Ministério da Saúde, ficam cheios de dedos para colocar em prática ações mais agressivas.” / MÔNICA REOLOM
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