Para quem pensa cometer um suicídio sem dor, alertamos que o suicida não o fará sem dor, muita dor.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Porque os homens nos matam

Lya Luft




Não tenho a menor tolerância com a figura do pai e marido boçal, que usa o stress no trabalho como desculpa para gritar ou distribuir bofetões em casa. Nunca vi nem escutei um homem batendo numa mulher. Mas histórias a respeito, ah, muitas pululavam em comentários dos adultos, e nas minhas fantasias de criança com excesso de imaginação, que aumentava encantos e pavores.



Relatos como o do homem que regularmente se embebedava e batia na mulher, os dois já de cabelos brancos. Os vizinhos incomodados às vezes reclamavam, mas todos tinham medo dele e, afinal “a gente não quer se meter”. Os filhos adolescentes do casal se refugiavam no fundo do pátio, os menorzinhos choravam. Até que um dia um deles, crescido, se meteu entre os dois velhos, e disse: “Na minha mãe você não bate mais. Ou eu te bato também”. Minha memória diz que o rapaz foi expulso de casa e nunca mais o viram. A mãe recebeu disfarçados parabéns quando, tempos depois, o velho cruel morreu, mas comentava-se que estava abalada. Porque “mulheres são assim”. Será?



Por que uma mulher aceita apanhar do parceiro ou ser humilhada por ele, controlada, ironizada? Por que admite ser tratada com grosseria pelo filho homem? O que deixou em nós, as remanescentes das cavernas, essa marca feia e triste, essa deformidade que cola com a deformidade do ex-troglodita às vezes assassino? É um dos mistérios humanos, nem todos engraçados ou curiosos, que talvez nunca se expliquem.



Não sei por que a brutalidade masculina e a submissão feminina fariam parte de nossa estrutura psíquica ou de qualquer cultura. Mas não desconheço a ideia de que o homem se cansa em trabalho sério, e a mulher se distrai em casa com as crianças e as lides domésticas, às vezes, quem sabe, com um empreguinho “fora” - sem direito a stress. A esta altura, matam-se no Brasil cerca de dez a doze mulheres por dia. Não morte por assalto ou acidente de carro: assassinato na mão do parceiro. Em certos lugares a exp0licação para os maus-tratos é simplória: “Os homens são assim”, e pronto. Ou: “Mas ele não te deixa faltar nada” - significando trapos para se cobrir, restos para comer temperados com lágrimas e solidão.



Para haver um opressor, dizemos, é preciso haver um oprimido. A mulher-vítima é quem dá coragem ao truculento. O jogo sadomasoquista funciona quando há pelo menos dois parceiros. Por que tantas vezes essa parceria mortal? A maioria dos homens não é psicopata nem boçal. Não se alegra na dor da parceira, não precisa lhe bater com palavras, atitudes ou punho fechado para se sentir mais homem.



O que leva uma jovenzinha aceitar, no começo ou no meio de uma relação, a brutalidade masculina, numa frequência absurda? Cresceu em 90% nos últimos tempos o número de mulheres que pedem socorro, no país inteiro, nas delegacias da mulher ou grupos afins. Porém, esses locais são insuficientes ou mal equipados, faltam funcionários, psicólogos, médicos, juízes, computadores. As famílias nem sempre ajudam; amigos não querem interferir; a lei é vaga ou descumprida. A sociedade omissa desvia o rosto.



Enquanto os pedidos de ajuda se multiplicam, as vítimas já tendo coragem de se queixar, querendo recuperar sua dignidade ou salvar sua vida, a espera é tão longa e a punição tão branda que o facínora realiza seu desejo animal: matar a indefesa. O pavoroso fim de mais uma jovem por estes dias, que horroriza, comove e assusta o país inteiro e chega ao exterior, destaca em nosso cotidiano de crueldade e medo o fato vergonhoso de ainda sermos massacradas, humilhadas, muitas vezes mortas pelas mãos dos nossos homens. E, se é assim, junto com tantos milhares de pessoas que querem ver o fim disso, eu proponho: enquanto indivíduos, vamos ficar atentos, vamos denunciar, ajudar, vamos agir. Enquanto sociedade, vamos prevenir, impor leis severas, e socorrer as vítimas – tirando dos brutos e psicopatas seu reinado de horror.



Lya Luft é escritora



Revista VEJA, 21 de julho de 2010