Para quem pensa cometer um suicídio sem dor, alertamos que o suicida não o fará sem dor, muita dor.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Alexander Moreira de Almeida: a importância da religiosidade no combate à depressão e ao suicídio

Ismael Gobbo



O psiquiatra Alexander Moreira de Almeida, 33, professor adjunto de Psiquiatria e Semiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora e diretor do Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde da mesma instituição, tratou, no Medinesp 2007, o congresso da Associação Médico-Espírita do Brasil (AME-Brasil), de um tema extremamente relevante: a importância da religiosidade no combate à depressão, suicídio e bem-estar das pessoas. Sobre os temas abordados no painel, ambos conversou com a Folha Espírita:



Folha Espírita : Qual a relação existente entre religiosidade ou espiritualidade e depressão?

Alexander Moreira de Almeida : Muitos são os estudos em vários países que buscam investigar a relação existente entre nível de envolvimento religioso e sintomas depressivos na população. E a maior parte deles tem revelado que as pessoas com maior grau de envolvimento religioso, ou seja, indivíduos que acham importante a religião em suas vidas e/ou que freq�?entam serviços religiosos tendem a apresentar menores níveis de depressão. Isso não quer dizer que o religioso não possa vir a ter depressão, porém, o risco tende a ser menor.



FE : Há algum dado estatístico que mostre a relação entre a religiosidade e a tendência ao suicídio no Brasil ou no mundo?

Almeida : Tanto no Brasil como no exterior foram desenvolvidos trabalhos que mostram essa relação. Como exemplo, um deles, realizado nos Estados Unidos e publicado há cinco anos, constatou que indivíduos que não freq�?entavam serviços religiosos apresentavam um risco de suicídio quatro vezes maior em comparação com aqueles que freq�?entavam com assiduidade o ambiente religioso.



FE : Como você define bem-estar em sua pesquisa?

Almeida : Há várias definições de bem-estar. De um modo geral o bem-estar é aferido perguntando-se ao próprio indivíduo, o quanto ele avalia o seu bem-estar e como se sente bem. Também deve ser avaliado o seu grau de otimismo, de esperança e outros indicadores que possam fazer emergir respostas à questão.



FE : As pessoas religiosas usufruem de maior bem-estar? São mais felizes, mais conformadas diante das provações que enfrentam?

Almeida : Os estudos a que nos referimos demonstram que, de um modo geral, o indivíduo mais religioso tende a ter maiores índices de bem-estar em comparação com indivíduos não religiosos.



FE : Por quê?

Almeida : Essa é uma grande questão ainda não respondida. Porém, alguns fatores ligados ao bem-estar e a felicidade também estão ligados à religiosidade. Por exemplo, alguns dos fatores ligados ao bem-estar são o sentimento do indivíduo de haver um sentido para a vida, perceber um maior sentido para ela, um objetivo na vida, nas coisas que faz, isto está ligado ao bem-estar e a religião pode promover isso. Também o maior apoio social, o relacionamento social, amigos, pessoas mais próximas, isso também esta ligado com felicidade, bem-estar e religiosidade. Em relação ao enfrentamento das dificuldades e desafios da vida, a religião muitas vezes contribui muito ao dar um significado para a vida e para as dificuldades pelas quais passamos.



FE : Você tem algum dado que mostre em qual reduto religioso ocorre menor índice de depressivos e suicidas?

Almeida : Não, os estudos de um modo geral não encontram muitas diferenças entre as diferentes religiões. O principal fator observado diz respeito ao nível de envolvimento religioso da pessoa e como se dá esse envolvimento.



FE : O fato de o Brasil ser um país formado por população muito ligada à religião, faz dele um país no qual as pessoas sintam maior bem-estar?

Almeida : É uma premissa que pode ser testada, porém, desconheço qualquer estudo que compare bem-estar e religiosidade no Brasil em relação a outros paises. É um tema interessante para ser estudado.



FE : Qual o tipo de tratamento espiritual que pode auxiliar no tratamento da depressão e de tendências suicidas?

Almeida : Esse é outro tema interessante que também merece ser estudado. Desconheço qualquer estudo a respeito. Mas o que de modo geral se percebe nos estudos é que a religiosidade pode ajudar o indivíduo a enxergar um sentido para a vida, os meios para compreendê-la ensejando-lhe a coragem necessária para encarar as dificuldades quotidianas com muita força e otimismo, objetivando superá-las. Além desse importante fomento à conscientização, levado a efeito por várias religiões, há aquelas que a ele associam os grupos de oração, a aplicação de passes magnéticos ou realizam reuniões específicas de tratamento espiritual.



FE : A sua palestra foi sobre uma pesquisa que fez sobre o assunto?

Almeida : Essa palestra é baseada numa revisão baseada em várias pesquisas publicadas sobre o assunto e numa revisão que foi publicada na Revista Brasileira de Psiquiatria. Essa e várias outras pesquisas podem ser acessadas gratuitamente na íntegra no site www.hoje.org.br/site/artigos



FE : E sobre seu estágio no exterior?

Almeida : Sem dúvida, o pós-doutorado na Duke University nos Estados Unidos foi muito importante para conhecer melhor os pesquisadores que têm trabalhado o assunto no exterior, ter acesso aos métodos de trabalho adotados e nos capacitar mais a colaborar no desenvolvimento das pesquisas de saúde no Brasil. Uma das conseq�?ências foi a publicação de uma edição especial em espiritualidade e saúde da Revista de Psiquiatria Clínica, editada pela USP, que pode ser acessada gratuitamente no seguinte link: http://www.hcnet.usp.br/ipq/revista/vol34/s1/index.html



FE : Em sua palestra, você apresentou uma informação de que os espíritas estariam situados entre os maiores usuários de bebidas e tabaco, talvez mais que os adeptos de outras religiões. Seria isso um sinal de inferioridade dos espíritas?

Almeida : Alguns estudos realizados no Brasil apontam no sentido de que o uso de álcool e outras drogas entre os espíritas seja maior que entre os católicos e protestantes. O assunto merece ser mais bem estudado tanto pela comunidade científica como pela própria comunidade espírita. Creio que uma das hipóteses levantadas para o caso, e que acho razoável, se prende ao fato de que quanto mais proibitiva uma religião, como em alguns grupos evangélicos, por exemplo, menor é o uso. Já no Espiritismo há a ênfase para o livre-arbítrio que, em muitos casos, de forma equivocada, alguns o utilizam como um salvo conduto e entendendo que possam fazer aquilo que queiram já que são livres e donos de seus destinos. Esquecem-s e de que ao lado do livre-arbítrio está sempre a responsabilidade, a necessidade de arcar com as conseq�?ências das escolhas feitas. Não devemos nos esquecer do bin�?mio liberdade e responsabilidade.



A religiosidade pode ajudar o indivíduo a enxergar um sentido para a vida, os meios para compreendê-la, ensejando-lhe a coragem necessária para encarar as dificuldades quotidianas com muita força e otimismo, objetivando superá-las.



Maio de 2008 - Edição número 405


Folha Espírita