Para quem pensa cometer um suicídio sem dor, alertamos que o suicida não o fará sem dor, muita dor.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

4 AFIRMAÇÕES PARA UM SUICIDA EM POTENCIAL (I)


SUICÍDIO: 4 AFIRMAÇÕES PARA UM SUICIDA EM POTENCIAL (I)

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"Não se chega a essas leis elementares pelo caminho lógico, mas somente pela intuição, apoiada em um contato solidário com a experiência" A. Einstein (GF Kneller: "A Ciência como Atividade Humana", p. 161, Zahar-EDUSP)
Márcio Amaral
INTRODUÇÃO
A partir da observação de que se pode atribuir pelo menos um diagnóstico psiquiátrico a cerca de 90 a 95% das pessoas que cometem o suicídio, as mentes mais apressadas estabeleceram uma relação causal entre os dois fatos. A simples observação, entretanto, de que: 1-as doenças mentais são distribuídas de maneira muito homogênea (incidências e prevalências muito parecidas) entre os diversos povos e; 2-as taxas de suicídio variam em mais de cinco vezes entre alguns países de um mesmo continente (Europa), essa relação fica totalmente abalada. Mais do que isso: SUPER-DIMENSIONAR O PAPEL DA DOENÇA TENDE A SER UM ENORME MAL no processo de crítica que as sociedades precisam fazer em relação à sua própria capacidade de lidar com os dramas de seus membros. Outros dirão que o maior risco nos países do norte europeu é uma questão do frio e da frieza que se observam por lá, mas a Noruega, por exemplo, tem cerca de metade das taxas de suicídio em relação às observadas na Dinamarca. Ou seja, o fenômeno é muito mais complexo do que pode parecer.
Se as taxas variam muito entre países e regiões: O SUICÍDIO É O FENÔMENO DEMOGRÁFICO MAIS PREVISÍVEL DENTRE TODOS, em um mesmo país ou região. Isso simplesmente prova que: 1-A decisão individual pelo suicídio é apenas um auto-engano; 2-O suicídio é, antes de tudo, um fenômeno sociológico. Existiria em cada sociedade uma "corrente sucidogênica", mais ou menos intensa (E.Durkheim). Quer isso dizer que os profissionais de saúde não têm nada a fazer a respeito? Não! Mas é preciso ter em mente que, quando da nossa entrada na situação de risco, o processo essencial já estará formado e, em alguns casos, cristalizado: somos chamados apenas quando a ideação tomou forma mais definida ou houve alguma tentativa. Es sa é a explicação para o nosso enorme e histórico fracasso na prevenção do suicídio. Enquanto esses acontecimentos não servirem para uma reflexão profunda a respeito das relações sociais, continuaremos a apenas roçar o problema e a fracassar redondamente. Podemos, e essa é a razão desse texto, mudar alguns cursos individuais que estavam dirigidos para a morte, mas socialmente, e enquanto não houver mudanças importantes nas relações humanas, continuaremos a fracassar na diminuição daquelas taxas.
Por que podemos dizer que temos fracassado redondamente na prevenção do suicídio? Até a década de 1960, morria quase o mesmo número de suecos, anualmente, tanto por suicídio quanto por acidentes de automóvel: cerca de 2000. No mesmo período, foram implementadas políticas públicas para a prevenção de ambos os riscos. Hoje, as mortes por acidentes de trânsito naquele país estão reduzidas a cerca de 370---apesar do aumento da população e do número de carros. Essa é uma das maravilhas daquele país---enquanto as mortes por suicídio se elevaram, especialmente em alguns subgrupos. Dirão alguns que, sem os esforços de prevenção, os números seriam muito mais elevados. SERIA UMA AFIRMAÇÃO TOTALMENTE VAZIA E INDIGNA DE UM PESQUISADOR. Somente para exercício intelectual, poderíamos dizer o oposto: essas práticas estariam agravado o problema. Seria uma afirmação igualmente vazia. O estudo das séries históricas, como gostam de dizer os epidemiologistas, mostram que as curvas seguiram apenas como que intocadas: TUDO O QUE FOI FEITO NÃO TEVE EFEITO SIGNIFICATIVO SOBRE ELAS. Qualquer afirmação diferente disso deve ser entendida como auto-engano e esforço para que não se fechem as fontes de recursos que alimentam as pesquisas e os próprios pesquisadores. Quer isso dizer que há que interromper esses esforços de prevenção? Não! Mas não deve haver também mais espaço para simplesmente seguir adiante de maneira cega tentando nos convencer de que nossa boa vontade é suficiente.
CIÊNCIA E EXPERIMENTAÇÃO NO SUICÍDIO
Outro equívoco muito comum entre nós é a identificação (limitação) da atitude científica com a experimentação*. Considerando que toda experimentação visa criar situações artificiais representativas de alguma situação habitual na vida das pessoas, concluiríamos, necessariamente, ser a investigação científica do suicídio impossível. Por definição, NÃO É POSSÍVEL, NEM RECOMENDÁVEL, CRIAR SITUAÇÕES ARTIFICIAIS PARA AVALIAR SEU RISCO DE INDUZIR O SUICÍDIO. Podemos experimentar, por exemplo, os efeitos da inalação de CO2 como fator de indução para crises de ansiedade, mas, para com o suicídio, qualquer atitude semelhante seria totalmente contra-indicada. Que outros digam que experimentação é possível nesses casos!
Com uma grande frequência, as hipóteses geradas pela aplicação de uma atitude científica (diante dos fenômenos da natureza) antecederam de muito a possibilidade de sua experimentação. Talvez o melhor exemplo para isso tenha sido o modelo heliocêntrico de N. Copérnico. Toda a sua argumentação se baseou em observações indiretas e não testáveis, até que fossem desenvolvidas lunetas mais potentes e que Galileu (o pai da experimentação, levada a efeito para provar outros fenômenos físicos) começasse a tomar notas do movimento das luas de Júpiter. Sua variação de posição implicava um movimento circular em torno do planeta, desfazendo assim a crença medieval na existência de uma abóbada celeste onde todos os astros estariam fixados e girando em torno da Terra.
Deixemos, então, de falar em Ciência (com C maiúsculo). Ela simplesmente não existe em si e por si mesma. O que existe é uma atitude humana, digamos assim, mais ou menos científica. Sempre que alguém: 1-Observa mais detidamente algum fenômeno da natureza ou humano; 2-Esmera-se na tentativa de sua descrição; 3-Procura por suas correlações possíveis, deixando de lado crenças místicas e/ou religiosas para sua origem; 4-Levanta hipóteses para sua explicação; 5-Tenta testá-las, quando possível; 6-Tenta elaborar uma teoria que possa explicar vários outros fenômenos correlatos, está tendo uma ATITUDE CIENTÍFICA. É o que interessa. Reduzir tudo isso à experimentação, além de demonstrar uma total perda de senso histórico, não depôe bem quanto à elevação intelectual de alguém.
O que era para ser uma Introdução ganhou corpo e se tornou um texto. Ganhei tempo para tentar formular melhor algo com que convivo há décadas.
CONTINUA...
*Os cientistas foram subdivididos por GF KNELLER (idem) em teorizadores ("impulsivos e com necessidade irrefreável para desafiar e contestar idéias aceitas") e experimentadores ("usualmente metódicos e meticulosos"). Em seu muito profundo e acessível livro, listou grandes cientistas nas duas categorias. Alguns poucos conseguiram balancear essas duas tendências. Considerando que, em relação ao suicídio, a experimentação---no sentido clássico da palavra---sofre uma limitação aparentemente incontornável, há que desenvolver um outro tipo de experimentação: a aplicação das 4 frases que serão discutidas é uma tentativa nesse sentido.